domingo, 24 de abril de 2011

Morrendo aos poucos

A ausência de vida em nosso amor cor de cinza tornou-se predominante. Predominantemente nublado. Assim como a catarata cega o horizonte de um futuro, a perspectiva que criamos para nosso "mundo melhor" é tão sustentável quanto o dia seguinte da cinderela antes de dançar valsa em um castelo de areia. E cuidado com as ondas do mar! Nem suas lágrimas infiltram mais no meu coração infértil. Nosso dia a dia era tão real... tanto quanto quem ri da própria desgraça. Como num sorriso forçado. Como o falso colorido em um buque de flores de plásticos. Os mesmos que você pediu em um doze de junho. 

Hoje me sinto um pouco mais insensível... Nem o deslizar da lâmina de uma faca faria sentido ao meu antebraço. Nem o sistema me deixa mais nervoso. Temo envelhecer até o apodrecimento. A dor se incorporou ao nada, juntos, sem definição. Ela transcendeu aos sentidos. Quase como o Sexto. Invadiu a alma. Acho que tudo isso é culpa tua. 

Está ouvindo!? Ou estou ficando louco? Só eu vejo música em tudo que ouço? Quase como em um vídeoclip. Ela sai dos seus lábios, creditadas, implorando para eu ignorar seus direitos ditatoriais. Pede para que minha melodia seja ainda mais pesada, mas sua pegada não acelera mais meu coração. Perdeu seu tempo! Por mais que meu solo peça acompanhamento, continua errando a batida. Desequilibrada como um violão sem braço. Distorcida como uma corda velha. Industrializada. Plágio. 

Nossa rotina e sua ausência apodreceram meus sonhos. Nem pesadelos costumo tê-los. Só silêncio. Até a TV incomoda. Meu ipad não faz mais sentido. Só sabe tocar uma única música.  Uma velha, plagiada de uma banda que nem existe mais. Como o fantasma de um amor passado, assombrando novos beijos e novos amores. É como reler uma carta de despedida. É mais ou menos assim:

O nada é todo no nosso ambiente / Ele já faz parte na vida da gente / Não há mais compaixão / Sinta só a batida do meu coração / Cada vez mais baixo...

É assim que termina:

A trilha sonora desta última noite / Acompanha uma banda em marcha fúnebre / Cada vez mais baixo! 

Ps: Escrevendo e ouvindo Kings of Leon e Incubus. 

Um comentário:

  1. Belíssima escrita, porém triste!
    Pois música é cor. Preto e branco é silêncio e grito. Desarmônicos, descompassados e perdidos em batidas sem sentido. Há beleza no cinza, mas é sempre importante não se acomodar na falta de cor. Não é à toa que o sol tenta cegar os olhos: na verdade quer te mostrar. Te mostrar que esperança, futuro, cores e alegrias são todos questões de ponto de vista.
    Boa sorte com o blog! :)

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